Por que o mascote do Cruzeiro é a Raposa?

O mascote do Cruzeiro é a Raposa porque o chargista Fernando Pieruccetti, o Mangabeira, desenhou o bicho em 1945 para o jornal Folha de Minas, inspirado na esperteza atribuída ao presidente do clube na época, Mário Grosso. A astúcia da raposa virou retrato da diretoria cruzeirense e, com o tempo, apelido do próprio time.
Nas próximas seções, o leitor conhece quem foi Mangabeira, como surgiu a série de bichos que até hoje identifica os clubes mineiros, quem era Mário Grosso e como a Raposa saiu das charges de jornal para as arquibancadas, até chegar ao Raposão e às polêmicas mais recentes.
Resumo rápido sobre a Raposa do Cruzeiro
- Criador: Fernando Pieruccetti, cartunista, pintor e professor que assinava como Mangabeira.
- Ano: 1945, segundo a maior parte das fontes; estudos acadêmicos situam o início das charges esportivas em meados dos anos 1940.
- Jornal: Folha de Minas, diário de Belo Horizonte já extinto.
- Inspiração: a fama de astuto e hábil nos negócios do presidente Mário Grosso, que comandou o clube de 1942 a 1947.
- Outros bichos do autor: Galo do Atlético, Coelho do América, Leão do Villa Nova e Tartaruga do Siderúrgica, entre outros.
- Raposão: mascote em forma de fantasia criado em 2003, com estreia no Campeonato Mineiro daquele ano.
- Polêmica recente: em março de 2023, o clube lançou novos visuais para o Raposão e o Raposinho, mas suspendeu a mudança após protestos.
Quem foi Mangabeira
Fernando Pieruccetti nasceu em Belo Horizonte em 1910 e morreu na mesma cidade em novembro de 2004. Foi pintor, desenhista, ilustrador e professor de desenho, com formação em filosofia pela UFMG. Antes de se tornar conhecido pelas charges de futebol, já circulava no meio artístico da capital: em 1936, teve destaque no Salão do Bar Brasil, exposição considerada marco inicial do modernismo nas artes plásticas mineiras.
O pseudônimo Mangabeira está ligado à região das Mangabeiras, em Belo Horizonte, mas a origem exata do apelido tem versões diferentes. Relatos publicados em jornais ao longo das décadas apontam datas e episódios distintos, e pesquisadores da UFMG que estudaram a biografia do artista observam que parte dessas histórias tem detalhes claramente inventados.
Depois da Folha de Minas, Mangabeira passou pelo Diário da Tarde, em 1946, e logo chegou ao Estado de Minas, onde publicou suas charges esportivas por várias décadas, até o início dos anos 1970.
Como nasceram os bichos do futebol mineiro
A Raposa não foi uma criação isolada. Em 1945, o secretário da Folha de Minas, Álvares da Silva, pediu a Pieruccetti charges esportivas no estilo das publicadas pelo Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro. O desenhista propôs algo diferente: pequenas fábulas, no espírito de Esopo e La Fontaine, protagonizadas por animais da fauna brasileira, cada um representando um clube.
Assim surgiram, quase ao mesmo tempo, os três bichos da capital. O Atlético virou Galo, por causa da fama de time brigador e do uniforme preto e branco, que lembrava um galo carijó. O América virou Coelho, referência ao sobrenome de vários dirigentes do clube e ao jeito que o desenhista enxergava no time. O Cruzeiro ganhou a Raposa.
A série foi além de Belo Horizonte. Mangabeira desenhou bichos para clubes do interior e de outras divisões, como o Leão do Villa Nova, de Nova Lima, a Tartaruga do Siderúrgica, de Sabará, e o Tigre do Sete de Setembro. Nas charges, os animais contracenavam e comentavam os resultados da rodada, o que ajudou a fixar cada símbolo na cabeça do torcedor.
Mário Grosso, o presidente que virou raposa
A escolha do animal para o Cruzeiro tem um personagem central. Mário Grosso presidiu o clube de 1942 a 1947, período que começou logo depois da junta governativa formada na transição do Palestra Itália para o Cruzeiro. Ele comandou o clube nos primeiros anos com o novo nome, em meio à reorganização provocada pela guerra.
Grosso tinha fama de esperto e astuto na condução dos negócios do clube. Segundo o pesquisador Marcelino Rodrigues da Silva, que estudou as charges de Mangabeira, a Raposa associava o Cruzeiro à habilidade de seus dirigentes de origem italiana, vistos como negociadores sagazes, e Mário Grosso era o exemplo mais lembrado desse perfil. A leitura feita pelo pesquisador acrescenta outro sentido: a raposa é o bicho que invade o território alheio, em contraste com o Galo, que defende o próprio terreiro.
Com o tempo, a referência ao dirigente se diluiu, e a astúcia passou a ser atribuída ao time em campo. A palavra Raposa virou sinônimo de Cruzeiro em manchetes, narrações e cantos de arquibancada.
Do jornal para a arquibancada
Durante décadas, a Raposa existiu sobretudo no papel, nas charges e nas páginas esportivas. A transformação em personagem de carne e osso veio só no século 21. Em 2003, o publicitário Paulo Nélio, então diretor de marketing do clube, criou o Raposão, mascote fantasiado que estreou em 23 de março de 2003, na vitória por 4 a 0 sobre o Tupi, pelo Campeonato Mineiro. Naquele mesmo ano, o Cruzeiro conquistaria a Tríplice Coroa.
O Raposão ganhou espaço nas festas do Mineirão, com chegadas de tirolesa, rapel, helicóptero e limusine em jogos marcantes. Anos depois, o clube criou o Raposinho, versão infantil pensada para o público mais jovem. As fontes divergem sobre o ano exato da estreia do Raposinho.
Em março de 2023, já sob a gestão da SAF, o Cruzeiro apresentou novas identidades para os dois personagens. O Raposão passou a ser inspirado em uma raposa-vermelha, de pelagem dourado-alaranjada, e o Raposinho em uma espécie de porte menor e pelos mais escuros, com desenhos do artista mineiro Camaleão. O clube afirmou ter buscado referências no traço original de Mangabeira, mas a mudança foi feita sem consulta à torcida e gerou forte reação. Dias depois, a diretoria suspendeu o novo visual e anunciou a criação de um comitê de torcedores para discutir o tema.
| Ano | Fato | Personagem |
|---|---|---|
| 1910 | Nasce em Belo Horizonte o futuro chargista | Fernando Pieruccetti |
| 1936 | Destaque no Salão do Bar Brasil, marco do modernismo mineiro | Fernando Pieruccetti |
| 1942 | Assume a presidência do recém-renomeado Cruzeiro | Mário Grosso |
| 1945 | Criação da Raposa nas charges da Folha de Minas | Mangabeira |
| 1946 | Mudança para o Diário da Tarde e, depois, para o Estado de Minas | Mangabeira |
| 2003 | Estreia do Raposão contra o Tupi, no Mineirão | Paulo Nélio (criador) |
| 2004 | Morte do criador da Raposa, em Belo Horizonte | Fernando Pieruccetti |
| 2023 | Novo visual do Raposão é lançado e suspenso após protestos | Cruzeiro SAF |
Perguntas frequentes sobre a Raposa do Cruzeiro
Quem criou a Raposa do Cruzeiro?
A Raposa foi criada pelo cartunista Fernando Pieruccetti, que assinava como Mangabeira. Ele desenhou o animal em 1945, nas charges esportivas do jornal Folha de Minas, na mesma série que deu origem ao Galo do Atlético e ao Coelho do América.
Por que a raposa representa o Cruzeiro?
O animal foi escolhido como símbolo de esperteza. Mangabeira se inspirou no presidente Mário Grosso, conhecido pela astúcia nos negócios, e nos dirigentes de origem italiana do clube, vistos como negociadores habilidosos. A ideia da raposa que avança sobre o território do adversário completou a imagem.
Quem foi Mário Grosso?
Mário Grosso foi presidente do Cruzeiro entre 1942 e 1947. Ele assumiu o comando logo após a mudança de nome do clube e ficou marcado pela fama de dirigente hábil e sagaz, característica que inspirou o desenhista a transformar o Cruzeiro em raposa.
Quando surgiu o Raposão?
O Raposão, mascote fantasiado que anima os jogos do Cruzeiro, foi criado em 2003 pelo então diretor de marketing Paulo Nélio. A estreia aconteceu em 23 de março de 2003, na goleada de 4 a 0 sobre o Tupi, pelo Campeonato Mineiro.
Mangabeira também criou o Galo do Atlético?
Sim. O Galo do Atlético, o Coelho do América e a Raposa do Cruzeiro nasceram na mesma série de charges, publicada na Folha de Minas em meados dos anos 1940. O autor ainda desenhou símbolos para clubes do interior, como o Leão do Villa Nova.



